
A Selah Chocolate, de Pedra Azul, conquistou o Diplôme Gourmet e tornou-se a primeira empresa brasileira premiada na categoria “ao leite puro”. A marca vai receber o troféu durante o Salon du Chocolat Paris, no fim de outubro. O reconhecimento internacional projeta uma fábrica artesanal do Espírito Santo. E, do mesmo modo, mostra que o Estado já possui capacidade técnica para competir no segmento mais sofisticado do mercado de chocolates de origem.
A barra vencedora usou cacau fino produzido no Pará, ponto que precisa ficar claro. Ainda assim, a Selah também transforma amêndoas de Linhares e trabalha no modelo bean to bar, da seleção do grão à fabricação da barra. O prêmio não pertence diretamente ao cacau capixaba, mas comprova que o Espírito Santo já domina uma etapa decisiva da cadeia. Ou seja, transformar matéria-prima de qualidade em um produto de alto valor agregado, com identidade, técnica e acesso ao mercado premium.

O salto produtivo que preparou o terreno
O Espírito Santo produziu 12.166 toneladas de cacau em 2024, em 15.784 hectares distribuídos por cerca de 50 municípios. Linhares respondeu por 8.321 toneladas, ou 68,4% do total estadual. Colatina produziu 584 toneladas, Rio Bananal alcançou 543 toneladas e São Mateus chegou a 542 toneladas. O Estado, portanto, não parte de uma experiência pontual. Já possui escala agrícola, concentração produtiva bem como uma cadeia espalhada por diferentes regiões.
O avanço mais importante ocorreu na produtividade. Em 2014, o Espírito Santo colhia 4.300 toneladas, com rendimento médio de 195 quilos por hectare. Dez anos depois, a produção cresceu cerca de 183% e o rendimento saltou para 771 quilos por hectare, alta próxima de 295%, mesmo com uma área colhida 28,4% menor. Esse ganho explica por que o debate agora precisa avançar do volume para a qualidade, o pós-colheita, a industrialização e a retenção de renda dentro do Estado.
O chocolate como porta de entrada
A oportunidade econômica vai muito além de uma premiação internacional (que é, sim muito importante). Está também na conexão entre agricultura, indústria e turismo. A Indicação de Procedência do cacau de Linhares, concedida em 2012, oferece um ativo de origem que poucas regiões produtoras possuem. O Plano Estratégico de Desenvolvimento da Agricultura Capixaba (Pedeag 4) acrescenta pesquisa, renovação de lavouras, capacitação, sistemas agroflorestais, crédito e estímulo à industrialização.
O desafio é transformar essa estrutura em mais marcas, mais fábricas e uma parcela maior do cacau processada no próprio Espírito Santo. Cada barra produzida aqui retém valor em embalagem, design, varejo, gastronomia, logística e emprego especializado.
O turismo de experiência pode multiplicar esse efeito. Em Pedra Azul, a Selah apresenta ao visitante a seleção das amêndoas, o processo de fabricação e as diferenças sensoriais entre cacaus de várias origens. E se viajarmos para o Noroeste do ES, também tem experiência nascendo.

Em Governador Lindenberg, a Belei Cacau, que produz cerca de 120 quilos por mês, planeja transferir a fábrica para o sítio, integrar cultivo e produção e participar de uma rota turística municipal. Nesses casos, o chocolate deixa de ser apenas um produto de prateleira. Ele passa a atrair visitantes, elevar o gasto médio, fortalecer hospedagens, restaurantes, cafés, lojas e outros negócios rurais.
“Nossa intenção é, no futuro, desenvolver um turismo de experiência no Sítio Belei, permitindo que as pessoas conheçam de perto todo o processo, desde o cultivo do cacau até a produção do chocolate. Esse projeto também está alinhado ao desenvolvimento do município, que está estruturando uma rota turística da qual fazemos parte”, pontuou a fundadora Grasi Belei.
Prêmio é vitrine
O prêmio da Selah funciona como vitrine, mas não garante sozinho a consolidação dessa economia. O Estado ainda precisa padronizar a qualidade das amêndoas, melhorar a fermentação, renovar lavouras, ampliar o crédito e estruturar rotas capazes de receber visitantes durante todo o ano.
O indicador decisivo será o aumento da parcela do cacau capixaba transformada dentro do próprio território. Quando produção, chocolate e turismo passarem a operar como uma cadeia integrada, o Espírito Santo deixará de vender apenas cacau e começará a vender origem, experiência e reputação.
Por: Folha Vitória



